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Há uma diferença profunda e essencial entre evangelizar e anunciar o Evangelho.

Jesus nunca disse para evangelizar ninguém. Disse para ir ao mundo inteiro e anunciar o Evangelho a toda criatura. Por quê? Porque o verbo “evangelizar” é um equívoco, simplesmente porque ela obscurece o significado original da palavra “Evangelho”. Evangelho significa “Boa Notícia”. Logo, evangelizar significaria, por extensão, “boanovizar” o que é exdrúxulo e absurdo. Uma “boa notícia” você guarda para si ou anuncia para os outros. O que Jesus quis dizer é que nossa tarefa, após recebermos a “boa notícia”, era a de espalhar essa notícia aos quatro ventos, de tal modo que o maior número possível de pessoas pudesse escutá-la.

Quando o cristianismo resolveu transformar “Evangelho” no verbo “evangelizar” isso ocorreu concomitantemente a um esquecimento do significado original do Evangelho. Evangelizar então, passou a denotar toda ação coercitiva que tem por objetivo fazer com que uma determinada pessoa adira a um certo conjunto de valores e crenças (o cristianismo) .Essa coerção pode ser feita à força como na Idade Média com as Cruzadas ou de modo mais sutil através do convencimento lógico-racional-autoritário que é o que fazem a maior parte dos evangélicos e dos católicos praticantes.

É por isso que é insuportável um papo de crente ou católico praticante quando você não é um cristão (e até quando se é um cristão…). Eles querem te convencer a ser cristão, ou como dizem os crentes, a “aceitar Jesus”. Caras pálidas: não sou eu que tenho que aceitar Jesus. Foi Ele que me aceitou antes da fundação do mundo. Esses, que se intitulam “evangelizadores”, se esquecem por completo de que a fé é um dom de Deus e que, portanto, se alguém passa a “aceitar Jesus” (rsrsrs) porque se convenceu pelos argumentos apresentados durante a “evangelização” feita por alguém, não se trata nesse caso de “fé” mas de “crença”. E crença, qualquer pagão tem, qualquer índio, qualquer budista, qualquer macumbeiro tem. Só a fé é um atributo caracteristicamente cristão porquanto seja um presente de Deus.

Portanto, evangelizar é um procedimento secular e político posto que se pauta numa argumentação. Não tem nada a ver com o Evangelho. É uma pura tentativa de fazer com que o outro passe a comaprtilhar dos mesmos valores que eu, o que no fundo não passa de um humano demasiado humano desejo de dominação.

Já “anunciar o Evangelho” é outra história, meus amigos. É cumprir a tarefa que Jesus deu a quem dele se quis fazer discípulo. Anunciar o Evangelho é, simplesmente, dizer ao mundo inteiro que Deus se reconciliou com o mundo por meio da morte e ressurreição de Seu Filho, uma notícia curta mas que, se bem compreendida, redunda numa série de consequências a perder de vista, isto é, muda tudo, metanóia, novo nascimento, renovação do entendimento. Metaforicamente falando, anunciar o Evangelho, é enviar uma carta ao mundo inteiro com a mensagem de que o Sentido da Vida se manifestou e que, portanto, aquele que chora deve se considerar feliz porque será consolado, aquele que tinha dúvidas sobre o que fazer para ser bom não mais precisa tê-las, pode descansar, pois o próprio Bem já se revelou, demonstrando que ninguém consegue ser bom se não for por obra do próprio Bem. Quem receber essa mensagem e acreditar em sua veracidade, sem ser por convencimento, mas por obra do Espírito de Deus, esse não quererá mais retribuir o mal com o mal, pois compreenderá que mesmo o gênero humano tendo realizado a maior ofensa do mundo, a ofensa contra o próprio Deus, esse o perdoou e deu o Seu Filho para livrá-lo da morte.

Anunciar o Evangelho, portanto, se distingue do evangelizar porque quando anunciamos o Evangelho estamos simplesmente dizendo ao mundo uma boa notícia, ou melhor, a única notícia boa que há. O resto é obra de Deus.

Dizei ao mundo

E disse Jesus, o qual era Deus encarnado:

“Ide por todo o planeta e anunciai aos homens que eles não precisam mais fazer sacrifício algum para receber as bênçãos da divindade. Dizei a eles que uma benção eterna e imperecível lhes foi dada gratuitamente, pela livre vontade do único Deus que há. Dizei a eles que agora eles podem descansar; que não precisam mais elaborar rígidos códigos morais para se salvarem. A salvação lhes foi dada como presente diretamente das alturas. Dizei a eles que não precisam mais se digladiar em questões vãs a respeito do significado da verdade, pois a própria Verdade lhes foi revelada na textura da carne. Dizei a eles que já não precisam mais indagar a si mesmos no tocante ao modo correto de se viver para ser feliz, pois o Bem maior, que contém em si toda a felicidade que há, viveu entre nós, demonstrando em atos e palavras em que consiste a vida feliz. Dizei, portanto, a todos esses que cansados estavam de pensar e agir tolhidos pela própria limitação e ingenuamente tentando ultrapassá-la, dizei a eles essas boas notícias, para que descansem e tomem consciência de que todo o seu trabalho que, como o de Sísifo, seria interminável, foi realizado de maneira completa e de uma vez por todas pelo próprio Deus.

Jesus disse no Evangelho que n’Ele seríamos verdadeiramente livres.

A uma verdadeira liberdade corresponde uma verdadeira escravidão.

A verdadeira escravidão não é a escravidão social, já extinta oficialmente em todos os países. Não é o colocar-se sob o jugo das ordens de outrem.

A verdadeira e única escravidão que realmente importa é a escravidão do pecado.

É a escravidão resultante de nossa incompletude, que nos faz buscar a solução para essa incompletude nos lugares errados.

Mesmo o escravo social – que não mais existe nas sociedades modernas – poderia manter sua verdadeira liberdade intacta por sua não submissão ao Senhor Pecado.

Jesus não veio nos oferecer uma liberdade sobre as injustiças sociais, sobre os ordenamentos jurídicos. Isso tudo a gente aguenta. O que a gente não aguenta, nem nunca aguentará porquanto nos leve para a Morte, é o pecado.

 

Torna-te herdeiro!

É simples assim:

O Rei tornou-se amigo do súdito (para espanto geral). Quer torná-lo herdeiro, pois, de sua majestade.

– Eis que quero-te herdeiro, diz o Rei ao súdito. Se acreditares, tornar-te-ás. Se não acreditares, não tornar-te-ás.

– Brincas comigo, meu amo? Tu já deves estar ciente – pois tal notícia corre por todo o reino – que sou, dentre teus empregados, o mais displicente e preguiçoso. Acaso meu irmão, mais diligente e responsável que eu, não seria mais digno de receber tal glória em meu lugar?

– Ora, diz o Rei, se a eficiência no trabalho fosse condição para compartilhar com meus filhos de minha herança, não crês que já o teriam conseguido diversos outros funcionários? Já tive muitos súditos bem mais capazes e diligentes que teu irmão e nem por isso decidi recompensá-los com minha herança.

– Então, dize-me, a mim, que ignoro como pensas, qual o motivo de tua decisão! – exaspera-se o súdito.

– Com efeito, chamar-me-ão de louco os homens da ciência que hoje proliferam em meu reino. No entanto, minhas razões se resumem a uma única motivação: amo-te como a um filho, mesmo que não faças o serviço corretamente. Sei que querias fazê-lo, mas tu sozinho não consegues. Já estive contigo em tua casa, sob disfarce, e vi o quanto sofres por não conseguires livrar-te da preguiça e de tua inabilidade no trabalho. Vendo teu sofrimento, compadeci-me de ti e pensei: “Nem que eu enviasse mil pedagogos, por mais capacitados que fossem, esse pobre servo aprenderia o ofício. Vou trazê-lo para minha casa e, sendo meu descendente ainda que adotivo, aprenderá de minha própria boca, como agradar-me. E não poderá deixar de fazê-lo.

– Meu amo, não sou digno de tamanha compaixão!

– Concordo contigo, mas não me importas o que tu pensas. A decisão é minha. Quero fazer-te herdeiro. Tu bem sabes que em meu reino as decisões não são registradas em papel como fazem os povos que cultivam a mentira. Basta-nos a Palavra. No entanto, para que a decisão se torne fato é preciso que creiamos nela. Eu já o faço, por suposto, pois elaboreia eu mesmo. E tu?

– Meu senhor, antes que eu responda, deixa que eu te pergunte: o que acontecerá se eu acreditar e tornar-me, de fato, herdeiro?

– Irás para minha casa e serás tratado como filho legítimo, aprendendo como agradar-me e viver como herdeiro. Com efeito, desfrutarás da felicidade com que sempre sonhastes.

– Mas, meu amo, vejo que para isso terei que abandonar não apenas meu ofício, mas meus pais e meu irmão que também habita em minha casa. Além disso, ainda não estou bem certo de que não estás a brincar com teu servo…

– Quanto a tua família, de fato, terás que deixá-la. Todavia, é possível que daqui há algumas luas, volte a encontrá-los, pois também farei a cada um deles a mesma proposta e, se aceitarem, as portas de minhas casa também lhes serão abertas. Quanto a tuas dúvidas, eu já as supunha de antemão. Refuto-as com o seguinte argumento: acaso pensas que Sua Majestade mente? Acaso atrasei um dia sequer o pagamento de teu salário, mesmo sendo tu um mau funcionário?

– De forma alguma majestade! De forma alguma! Estou envergonhado diante do meu senhor! Entender-te-ei perfeitamente se quiseres cancelar a proposta. Afinal, como tu quererás tornar herdeiro quem duvida de tua palavra?

– O que disseram para ti os homens do reino a respeito de mim? Eis que pensas que me magoas com tuas dúvidas! Acaso te arrogas com poderes sobe mim?

– Não, majestade. Mas é que disseram-me, e entre esses está principalmente meu irmão, que és um Rei justo que retribui a teus súditos conforme suas obras. Aos bons o bem e aos maus o mal.

– De fato, durante alguns anos de meu reinado agi assim. Pensava eu que com isso, estaria lhes ensinando como me agradar e fazer minha vontade. No entanto, logo me dei conta que mesmo os que me agradavam em seu agir, em seu íntimo odiavam-me e tramavam planos para tomar meu reino. Compreendi, portanto, que vós ereis maus trabalhadores por natureza! Por isso, tu fostes o primeiro a quem eu vim fazer a proposta, pois tu, ao contrário de teu irmão, não te esforças para seres o que não és.  Pelo contrário, tu te reconheces incapaz de, sem auxílio, fazer minha vontade. Compreendes, agora, que mudei meu regime? Reconhecendo que não havia um sequer que fazia minha vontade com amor, mas apenas por obrigação, resolvi tirá-los do reino para que fossem habitar em minha casa e, tornando-se meus herdeiros, não pudessem mais não fazer minha vontade com amor. Afinal, quem dentre vós que, vindo a habitar comigo, não me amaria e faria minha vontade?

– Senhor, como sois piedoso e cheio de misericórdia, pois poderias muito bem ter-nos despedido e contratado funcionários que de fato o amassem!

– Mas não há nenhum em toda a terra!

– Por que dizes isso?

– De fato, há muitos anos atrás, despedi um ministro do qual gostava muito mas que, por inveja, queria tornar-se rei no meu lugar. Pois bem, desde que o despedi, ele vive às margens do reino, enganando a todo trabalhador que aqui adentra a respeito de mim. Tu mesmo deves ter conversado com ele antes de vir para meu reino.

– É um que porta vestes negras?

– O próprio.

– Sim, eu o conheço. Foi ele mesmo quem me instruiu na preguiça, dizendo que tu não vigiavas o trabalho de teus empregados. Ficava a jogar xadrez comigo muitas vezes durante meu expediente. Descobrira que o jogo muito me aprazia e dizia que eu era um de seus melhores amigos. Após algum tempo não o vi mais e, tendo-me acostumado na preguiça, não sentia vontade de trabalhar, mesmo sem ter com que jogar…

– Conheço essa história quase de cor. Meus ministros que andam pelo reino já vieram me dizer que ele agiu da mesma forma com todos os outros servos. Com teu irmão, deve ter sido diferente de ti. Ele provavelmente deve tê-lo iludido com a fantasia de que se ele trablhasse corretamente tornar-se-ia herdeiro. Mas deixemos tais assuntos e voltemos a minha proposta. Repeti-la-ei:

– Eis que quero-te herdeiro. Se acreditares, tornar-te-ás. Se não acreditares, não tornar-te-ás. E então, acreditas?

– Sim, senhor.

– Pois então, considera-te, a partir desse momento herdeiro. Mas, tome bastante cuidado, pois apesar de ir ter em minha casa, não te será vedado passear pelo reino e pode ser que encontres o ministro despedido e ele certamente voltará a tentar lhe enganar. Mas se conservares tua fé na minha decisão, tu permanecerás herdeiro. Do contrário, se deixares de acreditar, tu, por tua própria descrença, abdicas da herança de meu reino. Entendes?

– Sim, senhor.

– Pois então venha. Há um banquete a sua espera. Toda a minha casa já deve estar à mesa…

Certa feita, não se sabe ao certo o dia, Deus resolveu conceber uma nova criatura. O Pai andava tristonho, pois já se passara um bom tempo desde que Seu Filho morrera e só alguns poucos ainda perseveravam na fé. Ele não sabia o que havia acontecido, pois não conseguia entender porque os homens negligenciavam e até desprezavam tão grande prova de amor.

Para verificar o que havia dado errado, Deus precisava de uma opinião imparcial, afinal Seu Amor pelo homem era tão grande que ele não conseguia pensar naquela imensidão de pessoas ainda envoltas nas trevas e não se compadecer delas. Pensou em chamar um de seus anjos mais próximos e lhe pedir que fosse até à Terra fazer uma espécie de “pesquisa empírica” para saber a razão que levava os homens a renegarem a Luz. No entanto, Ele sabia como os anjos eram. Depois de tantos anos auxiliando os fiéis nos percalços de suas existências, qualquer anjo ficaria facilmente consternado ante a ignorância humana e não lhe traria um juízo imparcial. Deus chegou até a falar com alguns deles sobre Seu mais novo projeto. Muitos deles se ofereceram para a empreitada, mas Ele, que conhece tudo, sabia que eles não conseguiriam manter uma atitude estritamente científica.

Uma das conversas com um anjo fora ouvida por Satanás que viera, como de costume, trazer seus milhares de rolos de pergaminhos abarrotados de acusações contra os homens. Suas vindas ao céu sempre eram infrutíferas visto que Deus, na pessoa do Espírito Santo, como um arguto lógico, ia dissolvendo, uma a uma, cada acusação. O diabo sabia que dessa vez não seria diferente, mas de todo modo lá estava ele a escutar de surdina as novas idéias do Criador. Lembrando-se da vez que o Pai lhe havia dado a permissão de arrasar a vida de Jó, Satanás não se fez de rogado e rapidamente se ofereceu para ser o “pesquisador” de Deus. Esse até cogitou a hipótese, lembrando-se da meticulosidade com que o diabo descrevia cada mínimo pecado dos fiéis. Ele precisaria de alguém que fosse um bom observador. Lembrou-se também que o diabo era muito amigo dos cientistas – poderia ter aprendido o espírito científico com eles, afinal, fora o próprio Satanás quem os incentivara a prosseguir no materialismo e no positivismo. Todavia, tais pensamentos passaram apenas como vento na cabeça de Deus. Ele considerou que, embora perspicaz, o diabo seria também imparcial, afinal, ele tinha uma inveja enorme dos homens, principalmente pelo amor incomensurável de Deus por eles. Satanás saiu, então, duplamente decepcionado do céu, pois perdera sua maior chance de mostrar a Deus a merda que os homens eram e com o aval científico…

Visto não existir ninguém no céu que pudesse se encarregar da tarefa, só restou a Deus fazer uso de seu poder criador. “Já que não tenho o que quero não existe, criá-lo-ei”, pensou Ele. Foi assim que Deus criou o primeiro homem literalmente extraterrestre da história. Ele possuía os mesmos atributos humanos, embora, tal como os anjos, não fosse dotado de um corpo material. Deus o fez assim para que ele pudesse ir até os “terrestres” sem ser visto e poder realizar o seu serviço com tranqüilidade.

Com o intento de que a nova criatura fosse 100% imparcial, Deus lhe fez completamente ignorante da realidade dos “terrestres”. Ele só possuía o conhecimento das coisas do céu e do que Deus já havia feito pelos homens. Por exemplo, ele sabia toda a lógica da salvação: do pecado original à morte de Cristo. No entanto, não tinha nenhum conhecimento sobre o modo como os homens se relacionavam, como se organizavam, como se relacionavam com Deus. Era o cientista perfeito, uma tabula rasa.

Para que a nova criatura não fosse enganada pelas aparências e por Satanás, foi-lhe dado um anjo como companheiro. Assim, caso a criatura vendo, não conseguisse compreender algo da realidade dos humanos, o anjo lhe explicaria: seria como uma enciclopédia falante.

Essa foi a ordem de Deus à nova criatura: “Irás à Terra e descobrirás as razões em função das quais os homens rejeitaram meu amor e não têm fé que Meu Filho morreu e ressuscitou. Farás isso para que eu possa decidir com justiça sobre o destino deles.”. Em seguida disse ao anjo: “Quanto a tu, irás explicar à nova criatura tudo quanto ela lhe pedir, de modo que os sentidos e o príncipe de lá não causem engano a ela.” Após essas instruções, a nova criatura e o anjo foram lançados na Terra. Não eram vistos por ninguém, posto que não tinham corpos materiais, e podiam locomover-se de um lugar para outro sem atravessar distâncias, utilizando apenas a força do pensamento. E a nova criatura era livre para ir aonde quisesse.

CONTINUA…

Ninguém leva coisas definitivas para uma viagem. Quando fazemos uma viagem daquelas de fim de ano, por exemplo, para o litoral e ficamos hospedados em um hotel, não levamos os móveis de nossa casa para lá. Por quê? Porque o hotel já conta com seus próprios móveis. E vejam: nós não temos ciúme nem apego aos móveis do hotel. Por quê? Porque sabemos que eles não são nossos e que estamos ali apenas de passagem. Pois bem, do mesmo modo, é preciso que compreendamos que nesta vida não estamos em casa. Estamos, na verdade, em um imenso hotel – de péssima qualidade visto que os móveis de nossa verdadeira casa são infinitamente melhores que os móveis dessa vida. Os primeiros cristãos tinham esse entendimento. Como, para eles, o Reino de Deus e o Juízo Final ocorreriam em breve, viviam sempre à espera de voltar pra casa, não se apegando aos móveis desse hotel passageiro. Aliás, os móveis da verdadeira casa não podem nem ser chamados de móveis, pois, de fato, são i-móveis, pois não perecem, estando fixos à nossa espera. O que acontece conosco hoje é que não possuímos mais a expectativa da vinda do Reino que possuíam os primeiros cristãos. Hoje vislumbramos o Juízo Final como algo que talvez acontecerá, obviamente após a minha morte, num futuro bem longínquo. Esquecemos-nos das palavras de Jesus de que o conhecimento do dia do Juízo cabe exclusivamente ao Pai e que ele pode ocorrer tanto hoje quanto daqui a 1 trilhão de anos. Então, como pensamos o Grande Dia como bem distante, nos esquecemos que estamos aqui de passagem, que somos apenas hóspedes. Começamos então, a nos apegar aos móveis desse grande hotel chamado vida. O dono do hotel insiste para que fiquemos. Por isso camufla as rachaduras do teto e o mofo dos móveis com um verniz reluzente. Esquecemo-nos que o chamado de Jesus é radical, pra não dizer cruel: ele quer o desapego, o abandono de todas as coisas, ou seja, o esvaziamento completo de si mesmo para que apenas ele possa ser nosso Senhor. O cristão não pode se acostumar com o mundo, já que embora ele esteja nele, ele não pertence ao mundo. Repito: é só um hóspede. O mundo deve ser pra ele sempre unheimlich, isto é, estranho. Porque seu heim, sua casa, não é aqui. A casa do cristão é o céu, a cidade de Deus. Assim como não levamos para casa nada do hotel em que nos hospedamos, assim também não levaremos nada dessa vida para a vida eterna. Isso não significa, contudo, que devamos nos afastar do mundo. Deus nos dá a vida justamente com a mesmíssima finalidade de um quarto de hotel no mundo. Temos que aproveitar os recursos dele, mas sem nos apegarmos. Em outras palavras, sem fazer com que eles passem a ocupar o lugar central de nossas vidas, porque o único dono legítimo desse lugar é Deus. É por isso que um dos maiores instrumentos do Maligno é a dependência química, porque essa patologia faz com que o indivíduo se comporte em relação à droga da mesma forma como o cristão deveria se comportar em relação a Deus, ou seja, sendo capaz de vender tudo o que tem para consegui-Lo. Ao mesmo tempo, o Maligno, de um jeito ou de outro, acaba mostrando que é sim possível ser cristão de verdade porque se um sujeito é capaz de se transformar num farrapo por algo que o mata, tanto mais alguém o fará por Aquele que é a vida em si mesmo. Talvez seja essa uma das razões pelas qual Jesus disse para não negar o empréstimo de nada. Se eu nego, eu atesto que estou apegado ao objeto e, se estou apegado, estou escravizado pelo mundo e, por conseguinte, ESCOLHO voltar para a prisão em que estava antes da libertação operada pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por isso também, o perdão infinito é a marca do cristão visto que o ato de perdoar revela a abnegação do orgulho, ou seja, de si mesmo. Quando eu amo meu inimigo, eu automaticamente decreto a abolição de mim já que nesse ato eu implicitamente afirmo que não existo já que não importa o que a pessoa faça eu sempre a amarei. Só um fraco/ignorante para confundir um quarto de hotel com sua própria casa. É preciso abrir-lhe os olhos para o óbvio.

Masturbação mútua

É sábado à noite. Uma moça se dirige a uma boate. Lá ela dança, requebra, balança ao som de Lady Gaga, Black Eyed Peas e Madonna. Naqueles quarenta, cinqüenta minutos, seu corpo fervilha de prazer, seus sentidos são tão fortemente tocados que ela não precisa do comprimido de LSD da amiga para se sentir como Alice no País das Maravilhas. Após uma pequena pausa, o DJ coloca uma música lenta, pra dançar coladinho. Um rapaz se aproxima, sua parca beleza auxiliada pela penumbra da pista de dança atrai a moça. Ele lhe diz meia dúzia de palavras, as quais ela sequer ouve. Só se lembra que foram ditas em meio a um hálito forte de uísque. Os dois dançam juntinhos. O corpo de um excita o corpo do outro. Ambos não se encontram. Continuam estranhos um para o outro. Praticam masturbação mútua – e ninguém percebe visto que todos praticam. A dança anterior era uma masturbação solitária. Talvez a companhia fosse só o corpo sensual de Lady Gaga nas fantasias da garota. Ela, que tinha tanto nojo de lésbicas, se permite um selinho com a cantora – na fantasia que é pra ninguém ver. Agora, ela se masturba com um bonitinho, um “peguete”. O bonitinho é seu mais novo vibrador – que ela nem percebe que é humano. A música lenta é interrompida. Começa um funk, da pior estirpe (pleonasmo proposital). Ela se lembra de que dançava o “Tchan” quando criança – quando aprendeu a rebolar. E agora ela rebola, com toda a sensualidade que o diabo lhe deu. Deixa o rapaz mais excitado. Ambos continuam suas respectivas masturbações mútuas que terminará num motel a dois quilômetros dali. Após ter proporcionado um orgasmo ao rapaz, ela senta na cama e tira da bolsa dois baseados. Dá um a ele. Ambos fumam e riem, iniciando uma nova masturbação mútua. Agora não é mais o rapaz o seu vibrador. E ela não é mais a gostosa da revista pra ele. Ambos gozam, isolados, cada um em seu mundo, com um pouquinho de esterco enrolado num pedaço de papel. Eles não se encontram, não se vêem. Continuam, cada um, em seu respectivo País das Maravilhas. As risadas dos dois são, de súbito, compartilhadas por uma voz mais grossa. Mas eles não dão bola. Já estão acostumados a escutá-la – quase sempre. A moça divide a conta do motel com o rapaz. Afinal, ambos se divertiram. Ele a leva pra casa. Ela mora logo ali no próximo quarteirão. No carro, ele não pensa nela, mas nos amigos para os quais contará que deu duas sem parar. Ela pensa em como vai mentir para as amigas, pra esconder o fato de mais uma vez não ter gozado. Ambos contarão a seus respectivos amigos como fora a masturbação. Ela desce do carro, espera que ele lhe peça o telefone. Ele não pede. Apenas diz: “A gente se vê”. Ela não pede o telefone dele – não é mulher disso. O carro parte. Ela entra em casa. Já está tudo escuro. São duas da manhã. Os pais já estão no terceiro sono. Ela vai ao espelho e olha o rosto. A maquiagem borrada. O cabelo vai precisar de uma nova sessão de escova. Ela tenta se lembrar do nome do rapaz e não consegue. Estranhamente, ela não quer ter outro “encontro” desses. Não agüenta mais sentir-se frígida. Estranhamente também, ela sente como se fosse ser assim para sempre, pro resto da vida. Ela não vê futuro, pois, no futuro, “encontros” como aquele serão cada vez menos prováveis. Ela vai envelhecer. Ninguém vai querê-la. Seus cabelos vão ficar brancos, vão cair. Ela vai ter rugas. E o que ela vai ganhar? Dinheiro, ela não quer. Seus pais já são bastante ricos para deixarem-na viver no bem bom pro resto da vida. Ela descobre que não tem desejo. Que sua vida é uma merda sem sentido. Ela, então, pega o último baseado da bolsa, senta no vaso sanitário. Levanta-se para fechar a janela para não vazar fumaça. Não há nada para ler a não ser uma bíblia velha que a mãe insiste em deixar ali. Vai a bíblia mesmo. O marcador de página estava no Evangelho de João. E a moça que não tinha Vida, A encontrou.